” Trabalho como assistente social num centro de demência há cinco anos. No ano passado, determinado dia, acordei com mau humor e sem vontade de ir trabalhar. Sempre que chego ao trabalho, sinto-me exausto e esgotado, como se já etivesse a trabalhar horas a fio. Todos os dias dava informações e aconselhamento a mais de 15 cuidadores de pessoas com demência, face-a-face ou por telefone. Durante os últimos meses, comecei a ter sentimentos negativos em relação a estas pessoas e já não tolero ouvir as suas preocupações e necessidades. Neste momento dou por mim a tentar terminar os compromissos muito mais cedo do que o habitual e a tentar adiar, se possível, reuniões com novos clientes. Penso que falhei no desempenho do meu papel, sinto-me incompetente, pouco eficaz e muitas vezes evito contribuir nas discussões com outros colegas. Sinto que não há solução para o meu problema, pois não posso parar e não há nenhum outro local, onde possa trabalhar. ”
Caso se identifique com esta história, então pode estar interessado em ler mais sobre burnout.

O que é o burnout?

Burnout no trabalho é um problema comum entre as profissões que prestam cuidados. É mais frequente nas profissões que lidam em contato direto com outras pessoas, como por exemplo, os profissionais de saúde, os professores e outros profissionais de serviços. As principais características são sentimentos de cansaço, frustração, raiva, despersonalização, ineficácia e fracasso. O Burnout afecta negativamente a vida pessoal e social dos profissionais, surge de forma gradual e habitualmente os profissionais não o aceitam facilmente como um problema. Na maioria dos casos, continuam a trabalhar, mesmo sem motivação.

O Burnout caracteriza-se por três dimensões de acordo com Maslach et al [1]:

  • Exaustão emocional: o sentimento de estar exausto, sentir-se usado e com falta de energia;
  • Despersonalização: tratar os outros de forma desinteressada, como se de objetos se tratassem, ao não demonstrar preocupação, atenção nem empatia;
  • Redução do sentimento de realização pessoal: verifica-se diminuição do sentimento de competência e produtividade.

Uma pessoa em burnout,, não tem satisfação com o seu trabalho, não está comprometido e procura ausentar-se sempre que possível. A sua saúde pode estar afetada; e muitas vezes, este quadro está associado ao abuso de substâncias. Sendo um fenómeno muito mais complexo do que o stress, é também mais difícil de diagnosticar e tratar.

Causas do Burnout

Existem causas relacionadas com o trabalho, o estilo de vida e traços de personalidade que estão associadas ao burnout 3.

Causas relacionadas com o trabalho:

  • Trabalhos exigentes e de baixa disponibilidade de recursos – (exemplo, os cortes no financiamento governamental que têm como consequência, uma menor disponibilidade de pessoas para lidar com as exigências do trabalho);
    Conflitos no trabalho. É frequente existirem situações de tensão no local de trabalho e surgirem conflitos entre os profissionais (clientes, colegas, gestores);
  • Falta de motivação no trabalho. Trabalhar muitos anos nas mesmas condições de trabalho e rotina, reduz a motivação inicial, e os sentimentos negativos podem surgir;
  • Falta de reconhecimento no trabalho;
    Falta de controlo;
  • Conflitos de valor;
    Falta de Justiça.

O estilo de vida faz com que:

  • O trabalho seja a sua primeira prioridade, e descarte para segundo plano a sua participação em atividades sociais e de lazer;
  • Ausência de relações interpessoais.

Características de personalidade:

  • Aumentado sentido de responsabilidade;
  • Perfecionismo;
  • Valores e ética;
  • Ansiedade;

Prevenir o Burnout

Poderíamos abordar as estratégias de prevenção considerando dois diferentes domínios:

  • Centradas na pessoa;
  • Centrados na situaço.

Na abordagem centrada na pessoa, algumas dicas úteis são:

  • Diminua o ritmo de trabalho;
  • Faça pausas regulares;
  • Aprenda a dizer “não” às funções que não deseja ter;
  • Envolva-se em novos desafios;
  • Faça pequenas mudanças no seu dia-a-dia. Comece o dia com energia, não salte da cama para ir trabalhar. Em vez disso faça exercícios, tome o café da manhã, leia algo do seu interesse, ouça música;
  • Melhore suas habilidades de coping: melhore a gestão do stress e raiva, promova uma reestruturação cognitiva, reduzindo as expectativas, estabelecendo novas metas, faça uma melhor gestão de tempo, adote formas alternativas de resolver os problemas, use técnicas de relaxamento;
  • Use apoio profissional e aprenda mais sobre as suas próprias necessidades pessoais;
  • Adote um estilo de vida mais descontraído;
  • Dê tempo para outros aspetos de sua vida: a vida social;
  • Desenvolva o seu lado criativo: inicie um novo hobby criativo;
  • Melhorar a sua saúde física e psicológica com o exercício, e nutrição adequada.

Na abordagem centrada na situação, as organizações podem desempenhar um papel central, ao ajudar os profissionais a gerir o burnout. Algumas ideias úteis são:

• Dar motivação, oferecer oportunidades de formação;
• Melhorar as competências dos profissionais com um sistema de rotação de trabalho;
• Fornecer aos profissionais, sentido de controlo sobre o seu próprio trabalho;

Profissionais que prestam cuidados no domicílio

A prestação de cuidados pode provocar exaustão aos profissionais que trabalham em casa dos pacientes. Alguns dos fatores que contribuem para essa sobrecarga são: as relações familiares, as obrigações do cuidador, as as características do sénior e as exigências do trabalho que aumentam com a progressão da doença.

Por exemplo, os distúrbios de comportamento das pessoas que sofrem de demência, como a agressividade verbal e física, a agitação contínua e a baixa capacidade funcional diária, estão significativamente relacionadas com níveis elevados de sobrecarga nos cuidadores renumerados.
Nos países da Europa de Leste e do Sul, uma grande percentagem de profissionais que trabalham no setor de atendimento domiciliário são imigrantes e vivem na mesma casa do sénior. Nestes casos, a maior dificuldade relaciona-se com a aprendizagem de uma língua diferente, necessária à comunicação entre os idosos e sua família. O facto de residir no mesmo espaço, leva a que não tenham tempo de lazer, e sintam frequentemente um desgaste muito intenso, que pode promover burnout.
O cansaço e as dores nas costas são alguns dos fatores que podem levar ao desgaste físico dos cuidadores. Estes casos são particularmente comuns nos cuidadores de pacientes em estadios mais avançados de doença, que precisam de mais ajuda para movimentar-se.
Finalmente, uma boa comunicação e confiança entre o profissional e o cuidador familiar primário parece afetar o nível de sobrecarga. Se essa relação é caracterizada por emoções negativas, desconfiança e questões frequentes contínuo, os profissionais podem sentir com mais intensidade solidão, desilusão e/ou frustração.

Cuidar de quem cuida

A fim de ser mais eficaz no seu trabalho, os cuidadores formais precisam de:

  • Informações sobre a doença;
  • Seminários educativos dirigidos especialmente aos profissionais que prestam cuidados;
  • Instruções sobre a gestão de situações difíceis;
  • Que o cuidador familiar reconheça e valorize o seu trabalho;
  • Estabelecer uma comunicação apropriada e eficaz com a família;
  • Tempos de lazer;
  • Reconhecimento dos seus direitos.

Os cuidadores formais são capazes de fornecer um melhor atendimento, com mais qualidade, maior satisfação no seu trabalho e relatar menos sobrecarga e emoções negativas se:

  • Compreenderem que o comportamento que o paciente adota é resultado da sua doença;
  • Não considerarem o comportamento do paciente como manipulador ou exigente;
  • Desenvolverem um bom relacionamento com o paciente e sua família;
  • Negociarem e chegarem a um acordo com o cuidador familiar em relação a todos os aspetos dos cuidados;
  • Desenvolverem competências no sentido de serem capazes de gerir os diferentes problemas práticos que surgem;
  • Tentarem ter algum tempo de lazer e fazer alguma atividade que gostem;
  • Mantiverem uma comunicação regular com a sua própria família e com outros profissionais.

Referências

[1] Malach Pines, A., Keinan, G. (2005). Stress and burnout: the significant difference. Personality and Individual Differences, 39:625-635
[2] Bruce, S.P. (2009). Recognising stress and avoiding burnout. Currents in Pharmacy Teaching and Learning, 1:57-64
[3] Kozak, A, Kersten, M. Schillmoeller, Z. , Nienhaus, A. (2013).Psychosocial work –related predictors and consequesnces of personal burnout among staff working with people with intellectual disabilities. Research in Developmental Disabilities, 34:102-115